Análise
Observe que o eu-lírico (narrador do poema) começa relatando a
história da negra Fulô com as seguintes palavras: “Ora se deu...” Esta
forma de iniciar seu texto lembra outras narrativas populares que têm
como início “Era um vez...”, “Certo dia...”, “Um dia...”, denunciando
o vínculo do poema com a tradição das narrativas orais. Se você
observar como as pessoas iniciam sua história, quando querem contar
um “causo”, verá que elas se utilizam de expressões semelhantes.
Aliás, Negra Fulô nada mais é que um “causo” contado em forma de
poema!
Para contar a história da negra Fulô, Jorge de Lima, dentre os
inúmeros recursos que a língua oferece, selecionou a forma da poesia
escrita em versos heptassílabos ou redondilha maior. Você sabe o que
são versos heptassílabos ou redondilha maior? Para saber o que é isso,
precisamos fazer a escansão dos versos do poema. Escandir o poema
significa, na verdade, verificar o número de sílabas métricas existentes
em cada verso. Observe os dois primeiros versos:
O / ra/ se/ deu/ que/ che / GOU
(1) (2) (3) (4) (5) (6) (7)
Is / so / já / faz/ mui /to / TEM/ po
(1) (2) (3) (4) (5) (6) (7)
Repare que a maioria dos versos do poema tem sete sílabas. Se
você quiser, pode conferir. Não se esqueça que, para verificar as sílabas
métricas de um poema, conta-se apenas até a última sílaba tônica,
desconsiderando-se a(s) restante(s). Versos com esta medida (sete
sílabas métricas) recebem, na teoria literária, o nome de redondilha
maior. Essa escolha que o autor faz em relação ao tamanho dos versos,
aliada às rimas, à divisão em estrofes e às repetições que aparecem
como um refrão, constitui-se num trabalho de linguagem que diferencia
a poesia dos demais tipos de textos.
Como se trata de um texto vinculado à tradição oral, a maneira
como pronunciamos as palavras podem alterar o significado do texto.
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